BOLETIM ELETRÔNICO

Cadastre aqui o seu e-mail e receba o nosso Boletim Eletrônico com todas as informações e notícias atualizadas, referentes às ações da Secretaria Executiva de Ação Social da Igreja Metodista na 1ª Região e Pastorais Sociais.

Escreva seu e-mail aqui:

Delivered by FeedBurner

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Entre a possibilidade e a contingência: vida e legado de Bispo Isac Aço

     Texto de Norberto da Cunha Garin

Para ter acesso ao arquivo completo em pdf clique aqui.

     Desde jovem a preocupação do Bispo Isac Aço foi com a justiça e a dignidade das pessoas. Esta preocupação o levou a lutar por uma Igreja voltada para os empobrecidos e solidária com as pessoas socialmente excluídas. Este artigo se constitui numa apresentação biográfica de Bispo, abrangendo desde o seu nascimento em Angola, na África, em 1935, até o seu falecimento trágico em acidente automobilístico, em 1991. É notável como o seu processo de formação, através do trabalho que realizou nas escolas rurais metodistas em Angola, contribuiu decisivamente para o perfil de sua ação missionária a ponto de desafiar a Igreja Metodista à prática da Teologia da Libertação.

AS MÃOS

Bispo Isac Alberto Rodrigues Aço



Há mãos que sustentam e mãos que abalam;
Mãos que limitam e mãos que ampliam;
Mãos que denunciam e mãos que escondem os denunciados;
Mãos que se abrem e mãos que se fecham;
Há mãos que afagam e mãos que rasgam;
Mãos que ferem e mãos que cuidam as feridas;
Mãos que destroem e mãos que edificam;
Mãos que batem e mãos que recebem as pancadas por outros.
Há mãos que apontam e guiam e mãos que desviam;
Mãos que são temidas e mãos que são desejadas e queridas.
Mãos que dão com arrogância e mãos que se escondem ao dar;
Mãos que escandalizam e mãos que apagam os escândalos;
Mãos puras e mãos que carregam censuras.
Há mãos que escrevem para promover e mãos que escrevem para ferir;
Mãos que pesam e mãos que aliviam;
Mãos que operam e que curam e mãos que amarguram.
Há mãos que se apertam por amizade e mãos que se empurram por ódio;
Mãos furtivas que traficam destruição, e mãos amigas que desviam da ruína;
Mãos finas que provocam dor e mãos rudes que espalham amor.
Há mãos que se levantam pela verdade e mãos que encarnam a falsidade;
Mãos que oram e imploram e mãos que "devoram”
Mãos de Caim que matam;
Mãos de Jacó que enganam;
Mãos de Judas que entregam!
Mas há também as mãos de Simão que carregam a cruz e
As mãos de Mônica que enxugam o rosto de Jesus.
Onde está a diferença? Não está nas mãos, mas no coração.
é a mente transformada que dirige a mão santificada, dedicada.
É a mente agradecida que transforma as mãos em instrumentos da graça,
Mãos que se levantam para abençoar.
Mãos que baixam para levantar o caído.
E mãos que estendem para amparar o cansado!
São como as mãos de Deus que criam,
que guiam,
que salvam,
que nunca faltam.
Há mãos e... mãos!
- As tuas, quais são?
- De quem são?
- Para que são?


 1. A formação do líder

O Bispo Isac Aço teve uma formação peregrina entre dois continentes:
Europa e África, pois era filho de um casal de missionários evangélicos1
portugueses que fizeram missão em Angola. Nasceu em 4 de maio de
1935, em Santo António do Zaire, na Angola, parte sul da costa oeste
da África. Seus pais, Luiz Campos Aço e Jesufina Baião Aço 2 deram o
nome de Isac Alberto Rodrigues Aço. Ainda pequeno Isac mudou-se com
a família para Portugal. Foi educado num sistema repressor, típico do
seu tempo em Portugal, onde imperava a palmatória entre outros casti-
gos corporais. Foi uma experiência difícil para ele que chegou a afirmar
em sua “Retrospectiva”3 que a escola era uma tortura.4 A ligação com o
Brasil estava relacionada com a figura do seu avô que teria vindo para
cá no início do século 20, na qualidade de imigrante, onde permaneceu
o resto de sua vida.
A primeira missão da família Aço foi a cerca de cinco quilômetros da
cidade de Caluquembe, onde havia uma missão evangélica típica, constru-
ída por missionários protestantes, que contava com diversas instalações:
a casa da família do missionário, o templo destinado aos cultos e atos
religiosos, uma escola paroquial, instalações para a Escola Dominical,
hospital, internato e oficinas destinadas à manutenção do patrimônio.
Em 1945, depois de algum tempo vivendo e estudando na escola da
“missão”, Isac foi matriculado num internato em Sá da Bandeira, hoje com
o nome de Lubango, a cerca de duzentos quilômetros de Caluquembe.
Durante a sua viagem houve um acidente com o caminhão em que viajava
e Isac acabou ferido, mas sem gravidade.5 Aquele tempo, no internato,
se transformou numa experiência negativa e por um ano ele praticamente
não avançou nos estudos. No ano seguinte seu pai foi transferido, como
pastor, para Sá da Bandeira onde permaneceu um ano. Dessa vez foi
uma experiência ímpar de partilha no seio da igreja, com muita alegria e
a comunidade teve um novo alento (AÇO, 1992, p. 20).
Pessoas em situação de risco de morte procuravam os missionários
para pedir refúgio. Houve uma ocasião em que a casa do missionário
chegou a ter quase vinte pessoas6 morando. Na madrugada do sábado7 de
aleluia, o fogo consumiu a casa da família. Salvaram apenas as próprias
vidas. No outro dia, o missionário e pai, reuniu as pessoas nos escombros
da casa para um ato de ação de graças pelas vidas que foram salvas.
Em 1947 o missionário foi transferido para a cidade de Moçame-
des. Este pastorado se constituiu numa experiência amarga. A família
vivia praticamente sem dinheiro, a princípio num hotel e depois numa
casa alugada. Passaram a depender da bondade de algumas pessoas
como do próprio dono do hotel, que se comprometeu a mantê-los como
hóspedes. Na avaliação de Isac, aquelas pessoas que lhes ajudaram e
fizeram amizade com eles foram, de fato, as pessoas mais cristãs que
eles encontraram naquela época.
Foi um período marcante para a formação da personalidade de Isac
no sentido de que percebia a dimensão do sofrimento imposto pelas
limitações materiais. Dessa forma, permitia-lhe olhar ao redor e, empati-
camente, sentir como as outras pessoas que passavam por semelhantes
limitações viviam. Esta percepção das limitações o impelia a uma ação,
que para Isac significava a ação missionária.
A cidade de Moçamedes era muito católica. Não havia trabalho
evangélico que não fosse aquele trazido pelo missionário Luiz Aço. Ele
teve que se defrontar com o padre local a ponto de ter que publicar um
livreto para enfrentar o sacerdote católico. O pátio do hotel servia de es-
paço para os cultos. Mesmo tendo uma família católica, o proprietário do
hotel obrigava os demais hóspedes e trabalhadores do estabelecimento a
assistirem aos cultos do missionário. Foi nesta cidade que Isac passou a
adolescência juntamente com a família, de onde suas irmãs saíram para
trabalhar em outras missões dando prosseguimento ao trabalho de seus
pais (AÇO, 1992, p. 20). Isac foi convidado para o trabalho nas escolas
rurais da Igreja Metodista (AÇO, 1992, p. 22).

2. O missionário metodista

O Bispo Isac se recordava de sua mãe como uma mulher que, en-
quanto vendia rendas em Lisboa, aproveitava para evangelizar. A maneira
dedicada como ela realizava esta tarefa também marcou sua vida. Por
diversas vezes ele se referia aos pais como responsáveis pela herança
espiritual que recebera, como se fosse uma espécie de chamado para
a missão, algo que transcendia à tradição cultural, “como uma herança
“genética” (AÇO, 1992, p. 16).
Após a Páscoa de 1955, Isac foi para Luanda, a convite da Igreja
Metodista, a fim de ampliar um programa de escolas rurais. Chegou a
coordenar a “educação de escolas rurais para todo o interior de Angola”
(AÇO, 1992, p. 16). Diferentemente das missões por onde havia passado,
acompanhando o pai, Isac declarou que, na Igreja Metodista encontrou
“uma Igreja organizada, que havia educado os negros, e na qual eles
tinham palavra e votavam nas decisões” (AÇO, 1992, p. 22). Em julho
desse ano foi nomeado diretor das Escolas Rurais da Área de Malange
e isto representou um desafio completamente novo, pois consistia em
escolarizar milhares de crianças,8 no interior da África, por lugares onde
as populações não recebiam qualquer assistência. Após o primeiro Con-
cílio de que participou, Isac passou a “entender a situação do negro – a
opressão, a exploração, a ânsia de libertação e que isso era parte da
própria fé” (AÇO, 1992, p. 22). Compreendeu que “o fato de abrirem as
portas da educação ao lado do evangelho era uma arma eficaz no espírito
da liberdade” (AÇO, 1992, p. 24).
Em 24 de abril de 1960 Isac casou-se com Graciela, passando esta
se chamar Graciela Duarte Rito Rodrigues Aço. Segundo ele, o casamento
foi uma aventura já que não tiveram condições de se visitar durante o noi-
vado, a não ser apenas uma vez. O namoro e o noivado foram realizados
por cartas9 e a família dele o representou no pedido de casamento. Duas
semanas antes do matrimônio, Isac chegou ao aeroporto de Lisboa onde
Graciela e seu pai o aguardavam, segundo ele, com um ar de descon-
fiança. Isac descreveu sua esposa como uma mulher corajosa, pois logo
após uma breve lua-de-mel partiram de navio para a África, percorrendo,
depois, o interior do continente, hospedando-se em casas de capim to-
madas por cobras, ratos, mosquitos e insetos. Assim foi o primeiro ano
de vida conjugal, em Malange, de onde Isac viajava constantemente,
deixando sozinha a esposa já grávida. Em 1o de março de 1961 nasceu
a primeira filha do casal, a quem deram o nome de Ana Cristina.
Nesta época, em Angola, já apareciam os primeiros sinais da guerra
pró-independência. Na madrugada de 15 de março a população iniciou o
levante, com revoltas, resultando em muitas mortes e diversas prisões.
Foram tempos de guerra e violência em que as populações negras foram
vingadas de anos de colonialismo português (AÇO, 1992, p. 26). Neste
contexto Isac recebeu um convite para estudar Teologia no Brasil.
Há um episódio deste tempo que é digno de nota: quando iniciou
a revolução da população negra em 1961, Isac foi salvo por causa de
seu costume de viajar sempre acompanhado de um menino negro. Este
se adiantava para anunciar que o branco que o acompanhava era Isac,
um missionário metodista. Em virtude de seu trabalho de solidariedade e
apoio aos negros de Angola, os missionários metodistas eram queridos.
Por isso não eram agredidos durante a revolução (CAVALHEIRO, 2003,
p. 37). Certa vez foi detido por algumas horas, ao descansar em um
posto policial português. Abordado pelas autoridades sobre quem era e
o que fazia respondeu que era um missionário metodista e que vinha de
diversas localidades, pregando o evangelho. Como o policial acreditava
que o trabalho missionário era contra Portugal, deteve-o junto com sua
esposa (CAVALHEIRO, 2003, p. 39).
É importante considerar que Angola foi colonizada por Portugal e
que, a partir de 1961, passou por um período de revoltas populares e
golpes, buscando sua independência, que somente aconteceu em 11 de
novembro de 1975.
A sua experiência em solo africano, testemunhando a dor dos verda-
deiros donos da terra, os negros, foi determinante para moldar sua visão
missionária e ecumênica. A forma como os portugueses escravizavam
os negros em sua própria terra, arregimentando-os para a colheita do
algodão, foi construindo a consciência de indignação diante da exploração
dos trabalhadores rurais de Angola (CAVALHEIRO, 2003, p. 36).
Esta característica missionária sempre o acompanhou. Na primeira
entrevista que concedeu à imprensa brasileira voltou a manifestar esta
vocação, quando se referiu a um dos motivos que o trouxe ao Brasil, fa-
lando do seu “ardente desejo de servir melhor nossa Igreja, em Angola”
(ANCHIETA, 1964, p. 8).

3. A viagem para o Brasil

De Angola, o casal com a filhinha, viajou para Portugal, mas o trâmite
para conseguir o passaporte demorou um ano. Durante este tempo de
permanência em Portugal, Isac completou os estudos de liceu10. Enquanto
esperava a liberação dos documentos Isac chegou a pensar em fazer o
curso de Medicina numa faculdade portuguesa. Neste tempo colaborou
com a Igreja Presbiteriana, na cidade de Figueira da Foz, no distrito de
Coimbra e arredores. Depois de muitas idas e vindas ao setor competente,
finalmente os passaportes foram liberados pelas autoridades portuguesas.
Mesmo assim, no aeroporto de Lisboa, a polícia salazarista, braço forte
do chamado Estado Novo que vigorou por cerca de quarenta e um anos
em Portugal, fez ameaças, estranhando como um missionário metodista
angolano tinha conseguido passaporte naquele país.
Se, por um lado, os estudos no Brasil trariam ao casal melhores
condições para um trabalho missionário mais significativo, por outro, o fato
de sair de sua terra lhe causava constrangimento. Entretanto, considerava
necessário. No dia 13 de julho de 1962, Graciela e Isac chegaram à São
Paulo, trazendo no colo sua filha.
O tempo em que Isac passou como estudante na Faculdade de Teolo-
11
gia foi analisado por ele como “tempo de plenitude, um tempo de graças”
(AÇO, 1992, p. 28). Na verdade, menos de dois anos após a chegada da
família, o Brasil mergulhou num período de ditadura iniciado com o Golpe
Militar de 31 de março de 1964. Nesta época, muitos seminários teológicos
foram fechados, houve prisões dentro e fora da Igreja e muita calúnia,
mesmo contra algumas escolas de teologia. Em meio a tudo isso, criou-se
“um ambiente de discussão franca, profunda e renovadora” (AÇO, 1992,
p. 28). Em agosto de 1964 o casal foi entrevistado pelo jornal da Igreja
Metodista, o “Expositor Cristão”, quando falou de diversos aspectos de sua
vinda para o Brasil. Entre outras coisas Isac destacou a generosidade da
Igreja Metodista do Brasil, por meio da Junta Geral de Missões e Evange-
lização (JGME), que proporcionou a bolsa de estudos e este foi o motivo
que havia possibilitado a sua vinda. Em 11 de agosto de 1963, nasceu o
segundo filho do casal, a quem deram o nome de João Paulo.12
Isac concluiria o curso de bacharel em Teologia em 1966. Graciela
formou-se em Educação Cristã na mesma data. Nesta época, eles já
haviam recebido recados da polícia de Angola de que seriam presos
se retornassem. 13 De outra parte, apesar do compromisso de voltarem
a Angola, nunca receberam qualquer comunicação do Bispo da Igreja
Metodista daquele país.14 A situação da guerra e a ausência de resposta
levaram Isac a contatar com o Presidente da Igreja Metodista, em Portugal.
Porém, a resposta foi seca, informando que não tinham necessidade de
mais obreiros em seu país. Durante este impasse Isac recebeu o convite
do Prof. José Salvador, titular da disciplina de História da Igreja, para ser
seu assistente na Faculdade de Teologia, em Rudge Ramos. Este trabalho
necessitava ser complementado com o exercício do pastorado, em São
Paulo. Entretanto, esta nomeação não foi possível e o casal ficou sem
alternativas no final dos estudos de bacharel em Teologia.
Depois de algum tempo, passada a formatura, Isac recebeu um te-
legrama do Rev. José Pedro Pinheiro, Bispo da 2a Região, formalizando
o convite para lecionar no Instituto João Wesley de Porto Alegre no qual
atuou por oito anos.
4. Um missionário ecumênico
O Bispo Isac foi uma pessoa preocupada com a caminhada ecumênica
dos/as cristãos/ãs. Considerava que, as pessoas em sua vida diária, já re-
alizavam este encontro e esta colaboração, pois havia muita gente fazendo
ecumenismo sem se dar conta. O ecumenismo não era uma substituição
das tarefas desenvolvidas por diferentes instituições e organismos, mas
tratava-se de “unir esses esforços em canais eclesiásticos apropriados,
que não substituam aqueles, mas os fortaleçam” (AÇO, 1982, p. 3).
Em 1969, como Secretário de Missões e Evangelização da 2a Região
Eclesiástica, em suas considerações sobre a Missão e a Evangelização da
Igreja Metodista, no Rio Grande do Sul, fez uma reflexão sobre a unidade
da Igreja com mudança de parâmetros da evangelização metodista, antes
endereçada a “converter” católicos e trazê-los para o metodismo. Neste
texto ele apontava para a “desunidade” 15 da Igreja como um elemento
de mau testemunho diante de um momento minado pela secularização.
Percebia que a falta do espírito de unidade levou muitas pessoas a mer-
gulharem em formas não cristãs de viverem sua fé.
Foi em Santa Maria que a vocação ecumênica do Bispo Isac se
consolidou, ainda como pastor. Decidido a juntar esforços para que a
Igreja fosse parte da cidade em todas as suas questões, ele desafiou as
lideranças eclesiásticas para se organizarem, reunindo os representantes
das Igrejas e expondo como o constrangia a situação das crianças nas
ruas da cidade. A partir das reuniões com estas lideranças teve início,
em nível ecumênico, um programa de rádio chamado “Amanhecendo com
Deus”, no qual meditava sobre este e outros problemas sociais da épo-
ca. Também liderou e incentivou a “contestação pela prisão dos líderes
bancários”, e organizou “as forças da Igreja, bem como civis para apoio
às famílias” (AÇO, 1992, p. 30) dos mesmos.
O Bispo Isac manteve contato com organismos ecumênicos nacionais
e internacionais. Atuou na Associação Internacional de Estudos de Missão
(IAMS), da qual era sócio fundador (AÇO, 1981a, p. 3) e participou de
seus três primeiros congressos. Em 1972 participou da 1a Conferência da
Associação em Driebergen, na Holanda.16 Em 1974 esteve na 2a Confe-
rência, em Frankfurt, na Alemanha, cujo tema foi “Missão e Movimentos
de Inovação”. Em 1976 foi membro da 3a Conferência, em São José,
Costa Rica, que tratou o tema “Tradição e Reconstrução em Missão:
onde estamos nós em Missão hoje?”. Foi também, representante da Igreja
Metodista, na Confederação Evangélica do Brasil, em 1974.
Ao mesmo tempo em que se entusiasmava com o crescimento da
unidade da Igreja pelas diferentes organizações e movimentos, o Bispo
Isac se entristecia com os sinais de divisão que se multiplicavam. Du-
rante a sua viagem de estudos à Europa, esteve em Portugal, em 1972,
de onde escreveu ao Expositor Cristão, lamentando a forma como o
protestantismo se dividia na mesma proporção que crescia naquele país
(AÇO, 1972, p. 8).
Em julho de 1981 participou da 1a Consulta Latino-americana de
Psicologia Pastoral, promovida pela Associação de Seminários e Institui-
ções Teológicas (ASIT), em Buenos Aires, em que foi abordado o tema
do cuidado e do aconselhamento pastoral, que contou com a assessoria
do Dr. Howard Clinebell (AÇO, 1981b, p. 4).
Antecedendo a realização do 13o Concílio Geral da Igreja Metodista
(Belo Horizonte, julho de 1982), no qual foi eleito bispo, foi entrevistado
sobre as suas expectativas quando falou do desejo de que a Igreja con-
tinuasse fiel à tradição metodista, mantendo seu posicionamento ecumê-
nico. Cabe observar que neste Concílio foi votada a inclusão da Igreja
Metodista no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC).
Na 6a Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), realizada
em fevereiro de 1983, em Vancouver, Canadá, o Bispo Isac foi um dos
delegados da Igreja Metodista. Falando sobre sua participação disse que
Vancouver era “um marco da história da Igreja. As Igrejas reunidas olha-
ram o final do milênio para afirmarem – Jesus Cristo – a Vida do Mundo,
em oposição à morte presente em todas as esferas da humanidade. E
é este Jesus Cristo, vida das pessoas e do Mundo, que as Igrejas são
convidadas a seguir, a proclamar e a viver juntas” (AÇO, 1983, p. 16).
O Bispo Isac integrou a diretoria do CONIC (S.N., 1991, p. 12)
desde 1987, como Secretário da Diretoria (AÇO, 1988d, p. 3) e como
presidente, a partir de 28 de novembro de 1990. Fez parte da diretoria
da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), no cargo de secretário,
de 1988 a 1990.
Em um texto sobre o tema da unidade da Igreja, publicado no
Expositor Cristão, em 1988, o Bispo Isac fez um levantamento sobre a
participação da Igreja Metodista no ecumenismo, mencionando todos os
órgãos dos quais a Igreja participava. Após a descrição dos organismos,
concluiu: “Em síntese: as igrejas na América Latina e no Brasil, inclusive
a Igreja Metodista, estão envolvidas em muitas atividades que expressam
sua unidade. Há um espírito de cooperação crescente em muitos setores
de base, que representam novas esperanças para o ecumenismo institu-
cional (AÇO, 1988c, p. 15).
Referindo-se a estes dois modos de participação ecumênica, de
base e de igrejas, salientava que há possibilidade de ambos conviverem
harmonicamente no seio da Igreja Metodista, pois “um não se contrapõe
ao outro; ambos devem complementar-se, para que as manifestações con-
juntas de testemunho, serviço e educação tenham a força necessária para
apoiar a ação popular na conquista dos direitos fundamentais como parte
da missão comum a serviço do Reino de Deus” (AÇO, 1988c, p. 15).
O Bispo Isac motivava seus/suas colegas de pastorado e de toda
a Igreja, a “abrir janelas e portas” para a caminhada ecumênica. Não se
conformava com uma Igreja fechada em seu denominacionalismo. Fazia
isto na mesma dimensão que não concordava com as divisões que se
formavam dentro da Igreja Cristã. Cria que se devia consubstanciar a
própria identidade confessional, para que pudesse entrar no diálogo
ecumênico com possibilidade de oferecer uma contribuição à unidade. Ao
elaborar uma lição para uma revista-texto da Escola Dominical escreveu
um diálogo entre dois personagens que compunham o conselho da Igreja.
Neste diálogo, um jovem e um idoso debatiam um plano para transformar
a reunião de meio de semana, da igreja local, numa reunião ecumênica.
Na argumentação do plano o jovem expressava a sua convicção de “que
nossa missão também agora é construirmos em comum, não como se o
que somos e temos nada valesse, mas por que o que somos deve ser
compartilhado” (AÇO, 1973, p. 24).
Como Bispo da Região, muitas vezes desafiava pastores e pastoras
a atuarem de forma corajosa em movimentos sociais e a participarem,
efetivamente, de eventos e solenidades conjuntamente com outras de-
nominações cristãs. Sua atuação ecumênica era um testemunho de sua
postura teológica. O Reino de Deus se estabeleceria na unidade dos/as
cristãos/ãs, lutando e sofrendo juntos as dores da desunião, mas cons-
truindo conjuntamente um outro perfil cristão, vinculado à unidade.
Em 28 de fevereiro de 1988, durante a realização da 5a Assembleia
Geral do Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina
e Caribe (CIEMAL), o Bispo Isac foi eleito para presidir o Concílio Epis-
copal (AÇO, 1988a, p. 34) desse organismo, cargo no qual veio a falecer
(AÇO, 1992, p. 14).
Como vice-presidente do CIEMAL, o Bispo Isac representou a en-
tidade num painel sobre a Liberdade Religiosa na Nicarágua, em 11 de
abril de 1986, em Nova York. Coerente com a sua consciência e com a
postura ecumênica do CIEMAL falou que a liberdade de culto deveria ser
incluída entre outros direitos fundamentais porque entendia que o direito
ao culto fazia parte da autodeterminação de cada nação.
Em abril de 1987 realizou-se em Bonn, na República Federal da
Alemanha, o segundo seminário promovido pelo CONIC e a Conferência
de Igrejas para o Desenvolvimento com o propósito de debater o tema
da dívida externa dos países empobrecidos.
A dívida externa brasileira, como de resto a dívida de toda a Amé-
rica Latina estava entre os temas que ocupavam a sua reflexão. Não se
contentava em ser apenas um participante dos debates – atuava como
militante e como organizador dos mesmos, tanto nos eventos promovidos
pelo CONIC quanto nos efetivados pela CESE, organismos dos quais
participava ativamente.
Como um dos representantes da Igreja Metodista no Brasil na Confe-
rência Geral da Igreja Metodista Unida dos Estados Unidos da América17,
o Bispo Isac ajudou a redigir o documento teológico básico sobre o padrão
doutrinário daquela Igreja.
Em outubro de 1988 esteve no Chile, representando o Conselho
Latino-Americano de Igrejas (CLAI) como observador internacional do
referendo constituído de um plebiscito nacional, que consultava a popu-
lação chilena sobre a continuidade do General Augusto Pinochet como
presidente até 1997. Na ocasião a ditadura militar daquele país foi derro-
tada pela ampla maioria da população. Este fato foi comentado pelo Bispo
Isac como um “dia radiante no Chile”. Considerava ridículo pensar que
os militares garantiram a segurança do pleito, pois, ao invés das forças
armadas, foi o povo chileno quem manteve a tranquilidade da consulta
popular (AÇO, 1988b, p. 3).
Em fevereiro de 1989, O Bispo Isac presidiu o “Encontro Episcopal:
Missão para a Paz”, realizado na capital da Nicarágua, na cidade de
Manágua, do qual participaram diversos bispos das Igrejas Metodistas
da América Latina e da Igreja Metodista Unida, EUA. Na mesma opor-
tunidade em que participava do encontro, visitou grupos de Igrejas e
para-eclesiásticos, partidos de oposição, órgãos de imprensa, corpo
diplomático de diferentes países, corpo ministerial e o Presidente Daniel
Ortega Saavedra, que governou a Nicarágua entre 1985 e 1990.
Isac era um homem de reflexão e inquieto com a realidade. Distan-
ciava-se dela para refletir sobre ela. Num tempo em que se apregoava
a necessidade de toda pessoa fixar objetivos para serem atingidos na
vida, ele afirmava que, o ideal não era “eleger uma determinada situação
para ser alcançada, mas inserir-se no movimento e no dinamismo de sua
situação presente para transformá-la” (AÇO, 1974, p. 8). Refletindo ainda
sobre a força do mais frágil que é capaz de vencer o mais forte, a pro-
pósito da Páscoa de 1976, Aço escreveu uma meditação inspirada numa
débil planta de seu jardim, que mesmo sepultada pela laje de cimento,
insistia, rompendo a pedra, impondo-se ao peso que a sufocava. Via
nesta planta que emergira da pedra, uma força incalculável na aparente
debilidade da vida. Considerando a construção da calçada de seu jardim
que, ao enterrar a planta supunha o fim de tudo, percebera que a planta
ressurgia “diferente, poderosa, renovada!” (AÇO, 1976, p. 18).
Considerava que o ideal era estar “a caminho”, inserido na luta, “acei-
tar os desafios permanentes para rever posições vividas e transformá-las
em novas situações” (AÇO, 1974, p. 8). Mais importante do que atingir a
vitória, o ideal não deveria ser o de “estar seguro da travessia, mas ter o
barco e estar navegando” (AÇO, 1974, p. 8). Considerava que sendo um
ser em polarização entre a criatividade e a contingência o ser humano
sempre ficava aquém do que podia torná-lo plenamente humano. Perce-
bia que esta polarização não era exclusivamente individual, mas também
comunitária, pois o “homem só é homem com os outros” (AÇO, 1975, p.
15). Dentro desta concepção de realização humana considerava valiosa
a dimensão histórica. O ser humano se constituía no arquivo da sua
própria trajetória: “Ele é o registro de sua história, registro onde ele é ao
mesmo tempo sujeito e objeto, autor e leitor crítico, memória, indicador
de possibilidades e registro de frustrações” (AÇO, 1975, p. 15).

5. Falecimento

A atuação do Bispo Isac à frente da 2a Região Eclesiástica foi mar-
cada pelo dinamismo de quem sonhava com uma Igreja forte ao lado
das pessoas excluídas da sociedade. A construção deste sonho foi inter-
rompida na tarde chuvosa de 26 de março de 1991, em um acidente de
carro, na BR 386, município de Montenegro, RS. Ele retornava de uma
visita episcopal que fizera ao Instituto Educacional da Igreja Metodista,
na cidade de Passo Fundo, juntamente com seus filhos João Paulo e
Marcos Wesley 18. Esta perda foi sentida com muita intensidade, pela
família primeiro e, mais profundamente, pela Igreja Metodista no Brasil e
no exterior e pelo mundo ecumênico de forma geral, que perdeu um dos
seus maiores batalhadores da época.
Considerações
A visão missionária e a busca insistente por uma Igreja solidária para
com as crianças abandonadas e os excluídos de forma geral forjaram a
personalidade do Bispo Isac. Este espírito combativo que propugnava
por uma sociedade justa na qual todas as pessoas pudessem se realizar
como seres humanos dignos marcou sua vida, tanto como jovem meto-
dista em Angola, quanto a sua atuação como pastor e depois como bispo
da Igreja Metodista no Brasil. Sua morte repentina e trágica interrompeu
uma página significativa da história do metodismo. A visão missionária,
interrompida com o seu falecimento, deixou desafios à Igreja que ainda
se projetam hoje como uma possibilidade a ser continuada.



Referências

AÇO, I. “Aqui está para você uma carta da Europa (I)”. In: Expositor Cristão, p.
8 (set. 1972).
______. “Bispo Isac Aço, presidente do CIEMAL”. In: Voz Missionária, ano 58, n.
3, p. 34 (jul./set. 1988a).
______. “Crescendo na comunhão dos cristãos”. In: Em Marcha, ano 7, n. 4, p.
24 (out./ dez. 1973).
______. “Ecos de Vancouver”. In: Expositor Cristão, p. 16 (out. 1983).
______. “Em busca de um pensamento aberto III: o homem parte I”. In: A Razão,
p. 15 (16 fev. 1975).
______. “Em busca de um pensamento aberto: temas para a reflexão ideal, [sic.]
é estar a caminho”. In: A Razão, p. 8 (3 out. 1974).
______. “Força e debilidade da vida”. In: Expositor Cristão, p. 18 (abr. 1976).
______. “Mensagem do diretor”. In: Mosaico, p. 3 ( abr. 1981a).
______. “Não ao general Pinochet”. In: Vida e Missão, p. 3 (ago. 1988b).
______. “O CONIC é uma associação para testemunho”. In: Mosaico, p. 3 (set./
dez, 1982).









SUFOCO DO CRESCIMENTO

ANO 01 – Nº 340

Sufocado pelos arranha-céus que cresciam nas cidades brasileiras na década de 1970, o Bispo Isac Aço[1], inspirou-se para fazer a sua declaração poética contrária ao crescimento desordenado das cidades, impedindo a visão do sol, da lua, do arrebol etc. Faz seu desabafo contra aquilo que entendia ser reflexo do crescimento:



FLORESTA DE CIMENTO[2]

Isac Alberto Rodrigues Aço

Cimento!
Trama o drama
com o ferro;
no momento
em que encerro
o pensamento,
chega um berro
da floresta
de cimento!

Não agüento
quando enterro
meu pensamento
no tormento
desta rua:
já não vejo o sol
já perdi a lua
não vejo arrebol;
mas sorvo o veneno
do drama terreno
sem alvorecer.

Chega de crescer!
Chega de morrer!
sem chegar a ser.

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...